Dúvidas Frequentes

Quais são as principais características do Transtorno do Espectro Autista (TEA)?

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um transtorno complexo do neurodesenvolvimento que envolve um conjunto de condições caracterizadas por déficits do desenvolvimento sociocomunicativo, que compromete a habilidade social-emocional, a comunicação verbal e não verbal e a interação social, bem como a presença de padrões de comportamentos repetitivos e interesses restritos (APA, 2013). Os sintomas se iniciam na primeira infância, embora não sejam identificados, são persistentes e interferem na vida diária da criança. Os prejuízos nessas áreas tendem a comprometer o desenvolvimento, ocorrendo uma grande variabilidade na intensidade dos sintomas e no prejuízo da rotina do indivíduo.

De acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (Centers for Disease Control and Prevention), um órgão público dos Estados Unidos, as pessoas com TEA podem se comunicar, interagir, se comportar e apender de maneira diferente da maioria das pessoas. Ainda, a capacidade de aprendizagem, pensamento e resolução de problemas das pessoas com Transtorno do Espectro Autista pode variar, desde alto funcionamento a severamente prejudicadas. As crianças com TEA desenvolvem taxas diferentes de dificuldades e facilidades nas diversas áreas, por exemplo, podem ter facilidade em montar quebra-cabeças ou resolver questões nos computadores, mas podem ter barreiras na interação social, como estabelecer diálogo e fazer amigos. Ainda esse público pode aprender uma habilidade complexa ao invés de aprender uma tarefa fácil, como no caso, uma criança pode ser capaz de ler frases longas, mas não consegue pronunciar qual é o som de um “b”. Essas características explicam o motivo pelo qual algumas pessoas com TEA precisam de suporte intenso em suas vidas diárias, enquanto outras necessitam menos.

Para fins informativos e complementares, a seguir são apresentadas as principais características do TEA para qualquer idade, descritas pela organização Autism Speaks dos Estados Unidos:

  • Perda de fala adquirida anteriormente, balbuciando;
  • Perda de habilidades sociais;
  • Evita contato visual e prefere ficar sozinho;
  • Possui dificuldade em entender os sentimentos de outras pessoas ou falar sobre seus próprios sentimentos;
  • Desenvolvimento das habilidades de linguagem e fala atrasada;
  • Repetição persistente de palavras ou frases (ecolalia);
  • Resistência a pequenas mudanças na rotina ou nos ambientes;
  • Interesses restritos;
  • Comportamentos repetitivos (bater, balançar, girar etc.);
  • Reações incomuns e intensas a sons, cheiros, sabores, texturas, luzes e/ou cores.

Esse texto é informativo, não tem cunho diagnóstico e nem terapêutico. Em caso de dúvidas, entre em contato com um profissional especializado.

Referência

American Psychiatry Association (APA). Diagnostic and Statistical Manual of Mental disorders – DSM-5. 5th.ed. Washington: American Psychiatric Association, 2013.

Centers for Disease Control and Prevention. What is Autism Spectrum Disorder?. Disponível em: https://www.cdc.gov/ncbddd/autism/facts.html

Autism Speaks. Learn the signs. Disponível em: https://www.cdc.gov/ncbddd/autism/facts.html

Quais são os principais sinais precoces para um possível diagnóstico de TEA?

A nova edição do DSM-5 (APA, 2013) alerta que as primeiras manifestações do TEA têm início precoce e tendem a apresentar-se antes dos 36 meses de idade, período este também que o diagnóstico é realizado nos Estados Unidos. Apesar de o diagnóstico precoce ocorrer entre 3 e 4 anos de idade, dados empíricos têm demonstrado que é possível identificar sinais do transtorno entre 6 e 12 meses, mas se apresentam mais perceptíveis e estáveis entre os 18 e os 24 meses.

Com base nos principais estudos sobre sinais de riscos precoces para um possível diagnóstico posterior de TEA, Cervantes et al (2016), citado por Varella e Amaral (2018), sintetizaram os sinais mais comuns e as principais áreas comprometidas:

  • Aspectos da Comunicação

– Atraso na fala (poucas ou nenhuma frase significativa – de uma a três palavras – não incluindo imitar ou repetir) aos 12 meses de idade.

– Alta frequência de vocalizações repetitivas e estereotipadas.

– Pouco ou nenhum uso do gesto de apontar para mostrar interesse (apontar para um avião sobrevoando) aos 14 meses.

– Não responde quando é chamado pelo nome (por volta dos 12 meses de idade).

  • Aspectos Sociais

– Falta de expressões emocionais e afetivas positivas (ex: pouco ou nenhum compartilhamento de sons, sorrisos ou outras expressões faciais e de afeto, aos 9 meses).

– Pouco sorriso social (ex: aos 6 meses apresenta pouco ou nenhum sorriso ou outras expressões alegres).

– Prejuízo no contato visual (pouco ou nenhum aos 6 meses).

– Pouco interesse por crianças.

– Baixa atenção a estímulos sociais.

– Importante déficit na atenção compartilhada.

  • Aspectos referentes aos padrões de comportamento repetitivos e estereotipados

– Padrões atípicos de brincadeiras, como por exemplo, rodopiar, girar objetos (observáveis a partir dos 12 meses).

– Dificuldades na brincadeira simbólica (fazer de conta que pretende alimentar uma boneca) por volta dos 18 meses.

Importante destacar que NÃO é regra que todos os sinais se manifestem para as crianças com autismo. Inclusive, muitas crianças que não têm autismo podem mostrar alguns. Fique atento. Na dúvida, procure um profissional especializado para triagem e avaliação.

Referência

Varella, A. Amaral, RN. Os sinais precoces do Transtorno do Espectro Autista. In: Sella, AC; Ribeiro, DM. Análise do Comportamento Aplicada ao Transtorno do Espectro Autista., Curitiba: Appris, 2018.

Qual é a importância da identificação precoce dos sinais de risco para o TEA?

A identificação precoce de sinais de risco para o TEA não significa que é possível afirmar um diagnóstico futuro, mas trata-se da importância de monitorar e avaliar a criança por profissionais qualificados, com o propósito de adotar estratégias para a prevenção de possíveis atrasos no desenvolvimento e delinear um plano de intervenção para déficits apresentados pela criança. É importante destacar, que não é necessário ou é requisito ter diagnóstico conclusivo para o TEA para se iniciar as intervenções.

Com o início precoce das intervenções, realizado a partir dos 3 anos de idade, os estudos têm apontado um importante impacto no desenvolvimento da criança. Bem como, o diagnóstico precoce do TEA, juntamente com o encaminhamento de tratamento que seja baseado em evidências, é um fator fundamental para viabilizar melhores prognósticos. Existem evidências científicas (Losardo e McCullough, 2016) que indicam as intervenções no período da primeira infância, nas quais o cérebro demostra maior plasticidade e potencial para mudanças neurais significativas, podendo alterar o curso do desenvolvimento.  

Referência

Losardo A, McCullough, K. (2016) Neuroplasticity and Young Children with Autism: A Tutorial. Journal of Anatomy and Physiology.

Quais são as opções para quando o diagnóstico é realizado tardiamente?

Muitas crianças iniciam o tratamento tardiamente, em decorrência da falta de informações e/ou capacitação dos pais, profissionais da saúde e/ou educadores na identificação precoce de crianças em risco para o desenvolvimento do Transtorno do Espectro Autista (TEA), decorrente, muitas vezes, da falta de acesso à clínica especializada. Existem algumas iniciativas nacionais para minimizar o diagnóstico tardio, como a Lei 13.438/2017, a qual obriga profissionais pediatras que atuem no Sistema Único de Saúde (SUS) a adotarem o protocolo ou um outro instrumento de avaliação para rastrear o risco ao desenvolvimento psíquico de crianças de até 18 meses de idade. Esses são instrumentos simples que poderão detectar precocemente, por exemplo, o TEA.

Independente se o diagnóstico for tardio ou precoce, e, mesmo se for detectado risco para um possível diagnóstico do TEA, é de extrema importância iniciar o tratamento, e ao escolher intervenções, atentar-se para aquelas que apresentam eficiência. Atualmente, as intervenções comportamentais baseadas na ciência da Análise do Comportamento Aplicada (ABA), têm inúmeros estudos rigorosos que comprovam sua eficácia.

Para maiores esclarecimentos sobre essa ciência, leia: O que é a Análise do Comportamento Aplicada?

Referência

Losardo A, McCullough, K. (2016) Neuroplasticity and Young Children with Autism: A Tutorial. Journal of Anatomy and Physiology.

O que é a Análise do Comportamento Aplicada?

Você já ouvir falar sobre o “método” ABA, no tratamento para indivíduos com Transtorno do Espectro Autista (TEA)?

Primeiramente, é necessário alertar sobre os equívocos que são frequentemente propagados. A Análise do Comportamento Aplicada (ABA – Applied Behavior Analysis), não é um método. ABA é a ciência constituinte da Análise do Comportamento, uma abordagem do campo da Psicologia. A Análise do Comportamento tem sustentação nas obras filosóficas e científicas de B. F. Skinner (1904-1990).

Assim, a ABA é uma ciência que utiliza os princípios científicos do comportamento para avaliar, explicar e solucionar problemas e questões práticas com impacto social. A Análise do Comportamento Aplicada visa contribuir para melhorar a qualidade de vida dos indivíduos, por meio de um conjunto de intervenções e procedimentos que podem ser destinados: ao manejo e diminuição de comportamentos  prejudiciais; à melhora de comportamentos socialmente importantes; e ao desenvolvimento de repertórios de competências que auxiliem no aprendizado de novas habilidades e generalize comportamentos e habilidades para novos ambientes e novas situações.

Referência

 Keenan, M. (2015) Autism and ABA: The gulf between North America and Europe. Journal of Autism and Developmental Disorders.

ABA: uma ciência para o tratamento do Transtorno do Espectro Autista (TEA)?

Outro erro comum é associar a Análise do Comportamento Aplicada (ABA) exclusivamente como sinônimo de tratamento para o autismo. A ABA é uma ciência ampla, são longos cinquenta anos produzindo milhares de pesquisas e aplicações notavelmente poderosas em diversas organizações (hospitais, escolas, casas, centros de negócios), populações (indivíduos com doença mental, crianças com desenvolvimento típico ou atípico) e comportamentos (agressividade, autoflagelação, habilidades de linguagem sociais e acadêmicas). Portanto, a ABA é ampla e se estende desde o ensino de habilidades funcionais ao público com autismo, estratégias de ensino para as crianças com necessidades educacionais especiais, pessoas com problemas de saúde relacionados à obesidade, gestão de comportamento organizacional, ou simplesmente auxiliar uma criança de três anos a descobrir que existem outras formas de comunicação e comportamento funcional, que não sejam gritar e morder.

ABA: é a mais nova intervenção para TEA?

A história de fundação da Análise do Comportamento Aplicada (ABA) sustenta que ao contrário do que se imagina, em relação à ABA na intervenção do TEA, não é um tratamento desenvolvido recentemente. Na década de 1960, iniciaram-se as pesquisas com crianças com autismo e dificuldades relacionadas ao desenvolvimento, com publicações influentes que documentaram a eficácia da ABA como ciência aplicada ao TEA, a partir dos resultados de sucesso do estudo do psicólogo Lovaas (1987) com um grupo de crianças com TEA, que revolucionaram e expandiram as aplicações da Análise do Comportamento ao espectro.

Existem estudos sobre a eficácia das intervenções ABA para o Transtorno do Espectro Autista (TEA)?

Dentre tantos tratamentos ofertados para o público com TEA, nem todos possuem pesquisas sólidas para apoiar as evidências de sua eficácia. Ao considerar a escolha das estratégias de tratamento, é importante discriminar quais são as abordagens que demostram ser mais eficazes. Para tanto, existem intervenções que pesquisadores demostram ser mais seguras e eficazes, que são chamadas de Práticas Baseadas em Evidências (PBEs). Ou seja, existem intervenções embasadas por estudos científicos com evidências que comprovam ser mais eficazes do que outras. A National Professional Development Center on ASD (um programa dos Estados Unidos que promove o uso das PBEs pelos profissionais) estabeleceu 27 intervenções como PEBs para indivíduos com TEA, com menos de 22 anos de idade, as quais são baseadas nos princípios da Análise do Comportamento Aplicada (ABA). As PBEs auxiliam os profissionais na tomada de decisão e integração da melhor evidência de qualidade disponível, com contexto do cliente e a experiência clínica, a fim de fornecer melhores resultados. Além do mais, analistas continuam se empenhando em validar com evidências científicas a efetividade de suas intervenções, portanto a ABA é um tratamento baseado em evidências científicas (Dueñas et al, 2018).

Referências

National Professional Development Center on ASD: Evidence – basead practices. Disponível em:

https://autismpdc.fpg.unc.edu/evidence-based-practices

Dueñas, A. Práticas Baseadas em Evidências e Análise do Comportamento Aplicada. In: Sella, AC; Ribeiro, DM. Análise do Comportamento Aplicada ao Transtorno do Espectro Autista., Curitiba: Appris, 2018.

ABA: é um tratamento seguro e eficiente?

A Análise do Comportamento Aplicada (ABA) tem sido referida como o tratamento de escolha para aqueles com TEA. Os programas de intervenção baseados na ABA têm possibilitado mudanças clínicas e socialmente significativas, além da manutenção em longo prazo dos ganhos obtidos. Destacam-se as principais vantagens da ABA em crianças com TEA: redução ou extinção da ocorrência e da duração de excessos comportamentais; desenvolvimento de capacidades sociais e emocionais; promove a socialização; aumento do repertório para as habilidades necessárias para a independência de curto a longo prazo; minimiza os efeitos secundários e os sintomas que acompanham o espectro; reduz os comportamentos que são prejudiciais, como a automutilação; maior desempenho acadêmico e cognitivo em geral; auxilia cuidadores e professores para que possam apoiar a aprendizagem e a prática ao longo do dia. Por fim, são desempenhos significativos na qualidade de vida que maximizam a independência funcional. Entretanto, existem algumas variáveis que influenciam diretamente para o sucesso do tratamento com a ABA, por exemplo, o início precoce e a intensidade/duração do tratamento.

Referência

Zanchor, DA et al (2007). Change in autism core symptoms with interventionResearch in Autism Spectrum Disorders, v.1, 304-3. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1750946706000262.

Walsh, MR (2011). The top 10 reasons children with autismo. Behav Anal Pract. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3196209/.

Quais são os principais passos para a intervenção ABA?

As intervenções baseadas no ensino da Análise do Comportamento Aplicada (ABA), para a educação especial, de um modo geral e amplo, seguem alguns passos fundamentais: 1) avaliação inicial/linha de base; 2) definição dos objetivos a serem alcançados (a curto, médio e a longo prazo); 3) elaboração de um programa/procedimentos; 4) Aplicação do programa através de terapia; 5) avaliação do progresso (análise dos dados). É importante frisar que o trabalho não se encerra após o quinto passo, pois é um ciclo em constante avaliação, reavaliação, registro e experimentação (Braga-Kenyon, Kenyon e Miguel, 2005). As intervenções ABA que possuem uma abordagem individualizada e altamente estruturada, em muitos casos, iniciam-se com o ensino de habilidades básicas como ouvir e imitar, que constroem bases para que as crianças aprendam habilidades complexas, como interações sociais, rotinas e autocuidado. Para a Análise do Comportamento Aplicada (ABA), as crianças com dificuldades educacionais especiais são capazes de aprender, contudo, em alguns casos, são necessárias condições de ensino diferentes dos métodos tradicionais, assim o profissional precisa preparar o ambiente para que novas habilidades possam ser ensinadas.

Referência

Braga-Kenyon, MS; Kenyon, S; Miguel, CF. Análise Comportamental Aplicada (ABA) – Um Modelo para a Educação Especial. In: Carmargos Jr (coord). Transtornos Invasivos do Desenvolvimento: 3º Milênio. Brasília: Secretaria Especial dos Direitos Humanos, 2005

As intervenções em ABA acontecem apenas no espaço da clínica?

As intervenções em Análise do Comportamento Aplicada (ABA) buscam desenvolver com qualidade programas flexíveis e adaptáveis que atendam às necessidades específicas de cada indivíduo, seja no contexto clínico, na escola, em casa, em grupo ou em outros ambientes que a criança convive. Por exemplo, os atendimentos domiciliares podem substituir ou complementar as intervenções na clínica. As terapias complementares em domicílio têm oferecido algumas vantagens, tais como a redução de comportamentos indesejáveis e prejudicais para o aprendizado devido a ser um ambiente seguro, familiar e motivador, uma maior possibilidade de planejar o ensino de habilidades em ambiente natural, de acordo com as necessidades que se impõem na vida cotidiana da criança e a oportunidade de envolver os demais familiares no tratamento. As intervenções acontecem em ambientes naturais, como a escola, seja por meio de Acompanhantes Terapêuticos (AT) fundamentados nos princípios da ABA, que auxiliam diariamente a criança nas demandas escolares, na socialização, na comunicação e nas brincadeiras, ou seja, por meio de orientações e parcerias entre um profissional especializado e a equipe escolar.

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